vigíliaas contas da eleição

calculadora · o que um governo Flávio Bolsonaro põe em risco

Quem paga a conta?

15 milhõesde pessoas pagam menos imposto de renda desde janeiro: 10 milhões deixaram de pagar.

141 milpessoas de renda muito alta pagam a conta, na declaração de 2027.

As duas coisas vêm da mesma lei, a 15.270, de 2025. A campanha de Flávio Bolsonaro promete revogar todos os impostos criados ou elevados pelo governo Lula, e o imposto do topo é um deles.

Salário, aposentadoria ou pensão: o rendimento tributável do mês.

Quem ganha R$ 5.000:

R$ 4.068

a menos de imposto de renda por ano desde janeiro, pela lei de 2025, contando o décimo terceiro.

Imposto retido por mês
pela regra até dezembro de 2025R$ 313
pela regra de 2026R$ 0
a diferença, por mêsR$ 313

Até R$ 5.000, o imposto vai a zero. De R$ 5.000 a R$ 7.350, o desconto diminui. Acima disso, nada muda.

A conta usa o desconto simplificado (R$ 607,20). Quem tem dependentes ou contribuição ao INSS maior que isso já pagava um pouco menos.

Quem paga

A isenção custa R$ 25,84 bilhões em 2026. Para pagá-la, a mesma lei criou um imposto mínimo para quem soma mais de R$ 600 mil de renda no ano, dividendos incluídos. O motivo está na curva: no Brasil, quem está no topo paga menos imposto de renda, em proporção, do que a classe média alta.

Alíquota efetiva do imposto de renda por faixa de renda, 2023A alíquota sobe com a renda até 12,0% no centésimo 93 e cai até 4,6% no 0,01% mais rico, a mesma de quem está no centésimo 63.0%4%8%12%25%50%75%os mais ricos12,0%: o máximo4,6%: o 0,01% mais ricoigual a este pontoquem declara imposto de renda, do que ganha menos ao que ganha mais
Imposto de renda devido em proporção da renda bruta, por centésimo dos declarantes, 2023. Ministério da Fazenda, Secretaria de Política Econômica, dez. 2025, figura 4. Os pontos foram lidos do gráfico do relatório e são aproximados; os dois marcados estão no texto.

A curva cai no topo porque a renda de lá é outra: no 0,1% mais rico, 51,1% da renda é isenta, sobretudo dividendos. Em 2024, 36.286 pessoas receberam R$ 344,8 bilhões em dividendos sem imposto: 42% de todos os dividendos do país.

Como o mínimo cobra

Não é uma alíquota nova sobre todo mundo. O mínimo vai de 0% em R$ 600 mil por ano a 10% em R$ 1,2 milhão, e só cobra a diferença entre isso e o imposto de renda que a pessoa já pagou. Se a empresa que pagou os dividendos já recolheu muito imposto, um redutor tira a diferença.

Contas sobre a fórmula da lei (Lei 9.250, art. 16-A), antes do redutor. Por isso, “até”.

A quem a revisão serve

A campanha de Flávio Bolsonaro promete revogar os impostos criados ou elevados no governo Lula. Os principais caem sobre poucas pessoas:

o impostoquem paga
o imposto mínimo dos mais ricoscerca de 141 mil pessoas0,13% de quem declara imposto de renda
a tributação dos dividendos36 mil pessoasrecebem 42% de todos os dividendos do país: R$ 344,8 bilhões em 2024
os fundos exclusivoscerca de 2.500 cotistascom R$ 756 bilhões aplicados
o IOF do câmbioquem compra dólaro plano promete o fim gradual (p. 63)

Do outro lado da mesma lei, 15 milhões de pessoas pagam menos imposto de renda desde janeiro. Em 9 de outubro, com Flávio à frente nas pesquisas, a bolsa bateu recorde; os bancos falaram em juros menores, e menos do imposto do acionista.

Imposto mínimo: Ministério da Fazenda, via imprensa. Dividendos: declarações do imposto de renda de 2024, Receita Federal. Fundos exclusivos: Lei 14.754/2023, dados da tramitação. Bolsa: Terra, 09/10/2026; Seu Dinheiro, com relatórios do BTG e do Citi.

A mesma lei

R$ 25,84 bilhõeso que a isenção até R$ 5 mil custa em 2026
R$ 25,22 bilhõeso que o imposto mínimo deve render, mais R$ 8,9 bilhões dos dividendos mandados ao exterior

Uma parte paga a outra. A Lei de Responsabilidade Fiscal exige compensação para qualquer renúncia de imposto, e a compensação desta é o imposto do topo. A lei passou na Câmara por 493 votos a 0, com o PL a favor, inclusive do imposto mínimo, e no Senado por unanimidade.

O que está em jogo no segundo turno

O plano de governo de Flávio Bolsonaro, p. 30, repetido na p. 71

“Vamos promover a revisão e o redimensionamento da reforma tributária em curso e da majoração de impostos efetuada pelo atual governo, com o objetivo de reduzir efetivamente a carga sobre a produção e o consumo.”

Daniella Marques, coordenadora do programa econômico da campanha, no Pânico, Jovem Pan, 21/9/2026, aos 32 minutos

“Flávio deu uma orientação pra equipe para retroagir e revogar todos os impostos criados ou elevados pelo Haddad.”

Flávio Bolsonaro, no programa eleitoral de 5/9/2026, aos 2 minutos

“Ao contrário do atual governo, que criou ou aumentou mais de 30 impostos — eu disse 30 —, eu vou fazer um tesouraço, cortar os impostos.”

vídeo no canal da campanha, 2:00 a 2:11

O imposto mínimo e a tributação dos dividendos estão entre os impostos criados pelo governo atual. O plano não nomeia quais impostos reveria, e não fala da isenção até R$ 5 mil. A Vigília não achou explicação da campanha sobre de onde viria o dinheiro da isenção sem o imposto do topo.

As perguntas que o plano deixa sem resposta: a isenção até R$ 5 mil fica? E, se o imposto mínimo sair, quem paga por ela?

Como a conta é feita

Fontes

  1. Receita Federal, Tabelas do imposto de renda, 2026. Acesso em 15/10/2026.
  2. Lei nº 15.270, de 26 de novembro de 2025.
  3. Ministério da Fazenda, Secretaria de Política Econômica, Relatório da distribuição pessoal da renda e da riqueza da população brasileira, dados do IRPF 2023, dez. 2025, p. 10-11.
  4. Receita Federal, Nota Cetad/Coest nº 009/2026.
  5. Flávio Bolsonaro, Para o Brasil vencer o atraso, plano de governo, 2026, p. 30 e 71.
  6. Daniella Marques no Pânico, Jovem Pan, 21/09/2026 (32:08 a 32:17); a matéria do Estadão Conteúdo, no Money Times, 21/09/2026.
  7. Flávio Bolsonaro, programa eleitoral de 05/09/2026 (2:00 a 2:11).
  8. A votação na Câmara: O Liberal.
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